27/01/2011

Anomia,

Todos os dias milhares de pessoas caminham apressadas mundo a fora, a rotina frenética da vida social nos grandes centros urbanos. Recife, a Veneza Brasileira, vê essa cena na Avenida Conde da Boa Vista, por onde passam os trabalhadores e mantenedores da produção do estado que mais cresce no Brasil.

Curioso por natureza gostaria de saber o nome de cada um daqueles que passam por mim. Cada rosto que cruza meu caminho parece denunciar um sonho esquecido, uma mágoa guardada, uma lágrima ressecada pelo tempo.

Do terceiro andar de um prédio que freqüento nesta avenida, sempre paro, reflito sobre como seria o mundo a minha volta se as pessoas pudessem sorrir mais. Um idealismo utópico, que me inspira a continuar acreditando na evolução humana e em seu senso moral.

Gostaria de ter acesso a cada sonho, imagino se existisse um Papai Noel ou uma Fada dos Desejos, eu os seria por um dia. Recordo-me de uma atividade, no ginásio... A professora nos deu como tema de redação: “com o que você acabaria para tornar a vida mais feliz no mundo”.

A palavra chave que me motivou a escrever foi “riqueza”, sabia pouco sobre a história do capitalismo, mas, sabia que a pobreza era um paradoxo desta praga, gerada pelo ego humano. Sabia o poder destrutivo de um tênis americano sobre uma sandália de dedo fabricada a duas ruas da minha casa.

O que era claro na minha mente, ainda jovem e despretensiosa, era o poder de argumentação que possuía o inventor dos objetos que vendiam nas grandes lojas, as lojas em que eu não podia comprar. História de uma criança humilde da periferia que cresceu ouvindo que o dinheiro do meu pai não dava para comprar.

Minha primeira desilusão foi saber que as pessoas na televisão não viam quem estava do outro lado. Foram sucessivas as desilusões, é duro crescer ouvindo que o mundo sobrevive da mentira e dos sonhos alheios.

De certo modo, cresci sabendo que o conhecimento diferenciava as pessoas, isso me mostrava que além do dinheiro existia uma forma de se fazer notar no meio de milhões de pessoas. Meu passatempo passou a ser estudar, também minha única forma de saber o que a TV não mostrava.

Eu sabia que alguém inventava coisas, que elas estudavam para ser inteligentes e falar bem, quem falava bem era respeitado, era o que eu queria.

Meu primeiro livro foi “O Pequeno Príncipe”, ganhei de uma tia que comprou no SEBO, em frente à parada de ônibus, vindo do trabalho. Não sei o porquê, mas, me fascinei pela conversa do menino com a raposa.

Hoje, depois de entender algumas coisas sobre a vida, consigo entender que a frase clichê: “O Brasil precisa de educação” é na verdade a grande sacada de quem deseja ver a verdadeira revolução. Acredito que a evolução é fruto antes de tudo do amadurecimento e ampliação de nosso universo particular.

Defendo que cada pessoa possa ser reconhecida por sua contribuição ao bem-estar coletivo, independente de sua formação intelectual, no Brasil, sobretudo, varrer a rua ou catar papelão é ter seu nome nas pesquisas que justificam a eterna luta entre as classes sociais.

De um lado os donos da verdade, do outro os sem argumento. Preocupa-me saber que nossa Pátria Mãe Gentil não sabe o nome dos seus filhos, pior ainda é negar-lhes o direito de saber a riqueza que lhes é de direito. A cultura é o maior patrimônio de um povo.

“Se o pobrema fôce nois saber escrever ou lê era bom. O probema é nois nem sabê o que é pobrema, na nossa vida tudo é crisi. Niguem podi sonhá pus quê ninguém dormi, só trabaia...”

3 comentários:

  1. Há aquela moral que diz que um sorriso leva a outro. Assim como um bom dia, boa tarde e assim por diante. O problema mesmo é hoje em dia sempre há desconfiança.

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  2. Fico feliz por você ver o mundo de um ângulo diferente. Para mim será uma honra poder me embriagar nos seus textos.


    - Joás Feijão

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  3. Tb acredito na educação, no conhecimento e no sorriso como agentes da mudança!

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